Entrevista

Entre pessoas, hotéis e viagens

Uma conversa com Cláudia Lobo sobre hotelaria, Recursos Humanos, hospitalidade e a construção de um negócio próprio no universo das viagens.

Cláudia Lobo

HR Manager · Hospitality · Travel Consultant

Cláudia Lobo, HR Manager e consultora de viagens da The Travel Edit

Introdução

Há percursos profissionais que seguem uma linha reta. O meu foi-se construindo através de diferentes experiências e, sobretudo, de muita aprendizagem pelo caminho.

Entrei na hotelaria em 2022, vindo de uma área completamente diferente, e comecei diretamente nos Recursos Humanos. Desde então, fui conhecendo a hotelaria não apenas através das pessoas, mas também da operação, dos desafios dos hotéis e daquilo que acontece muito antes de um hóspede chegar à receção.

Hoje, continuo ligada à hotelaria e aos Recursos Humanos, enquanto construo também uma segunda dimensão profissional através da The Travel Edit.

À primeira vista, podem parecer dois mundos diferentes. Para mim, têm muito em comum: pessoas, expectativas e experiências.

A conversa

01 — Como começou o seu percurso na hotelaria e o que a levou até aos Recursos Humanos?

Quando entrei na hotelaria, em 2022, vinha da área da construção e comecei diretamente nos Recursos Humanos, com muito pouco conhecimento sobre uma operação hoteleira.

E não comecei propriamente num período fácil. Estávamos ainda a viver os efeitos da COVID e tinha mais de metade da equipa de baixa médica. De repente, tive de aprender rapidamente o funcionamento de uma operação, os diferentes departamentos, as funções e até a distinguir um empregado de mesa de 1.ª de um de 2.ª.

Foi uma aprendizagem muito prática e muito rápida. Percebi desde cedo que, para fazer bem Recursos Humanos na hotelaria, não podemos estar afastados da operação. Temos de perceber como o hotel funciona, o que cada função exige e aquilo que as equipas vivem no dia a dia.

E hoje já levo algumas aberturas de unidades no currículo. Cheguei ao ponto em que entro num restaurante ou num hotel e começo a reparar nos copos, nos pratos, nos talheres e a tentar perceber quem são os fornecedores. [risos]

É provavelmente um dos sinais de que a hotelaria já entrou definitivamente na minha forma de olhar para o mundo.

02 — O que é que trabalhar na hotelaria lhe ensinou sobre pessoas que hoje leva para a sua função enquanto HR Manager?

Uma das maiores aprendizagens foi perceber que não existe uma receita única para gerir pessoas na hotelaria.

Cada hotel tem uma identidade, uma operação, uma liderança e uma equipa diferentes. O que funciona num hotel pode não funcionar noutro.

Mas também aprendi a distinguir muito claramente quem tem verdadeira vocação para a hospitalidade.

Ao longo destes anos encontrei profissionais que nasceram para isto — para receber, servir, antecipar necessidades e criar experiências. E encontrei também pessoas que chegaram à hotelaria porque, naquele momento, 'era o que havia'.

E essa diferença nota-se.

Nota-se na forma como recebem o cliente, na relação com os colegas, na vontade de aprender, na forma como vestem a camisola e, inevitavelmente, nos reviews que os clientes deixam.

Quando alguém gosta genuinamente daquilo que faz, o cliente percebe.

Podemos ensinar procedimentos, sistemas e competências técnicas. Mas a verdadeira hospitalidade tem também uma componente humana que é muito mais difícil de ensinar.

Quando alguém gosta genuinamente daquilo que faz, o cliente percebe.

03 — Quando passou de uma perspetiva mais operacional para uma função de Recursos Humanos, o que mudou na sua forma de olhar para a hotelaria?

Passei a perceber que aquilo que o hóspede vê é apenas a última etapa de uma cadeia muito maior.

Por trás de um check-in bem feito, de um quarto preparado ou de um serviço à mesa, existem pessoas, liderança, formação, comunicação e, muitas vezes, problemas que o cliente nunca chega a conhecer.

Trabalhar em Recursos Humanos deu-me uma visão muito mais transversal da operação. Hoje, quando olho para um hotel, não vejo apenas departamentos: vejo pessoas, relações, processos e decisões que acabam por ter impacto direto na experiência do hóspede.

E essa visão operacional é, para mim, fundamental para fazer Recursos Humanos na hotelaria com credibilidade.

04 — Hoje acompanha diferentes projetos e equipas hoteleiras. Qual é o maior desafio de gerir pessoas num setor tão exigente?

O maior desafio continua a ser a falta de mão de obra qualificada. Mas há uma questão que considero igualmente importante: perceber quem realmente tem vocação para a hospitalidade.

A hotelaria tem horários exigentes, ritmos intensos e uma enorme dependência das equipas. Mas o problema não se resolve apenas contratando mais pessoas.

Precisamos de encontrar, desenvolver e reter profissionais qualificados e, sobretudo, de mostrar que existe uma carreira possível dentro da hotelaria.

Porque quando alguém tem verdadeira paixão pelo serviço, isso sente-se. E quando não tem, também.

05 — Existe uma frase muito repetida nas empresas: 'as pessoas são o nosso maior ativo'. Na prática, o que significa realmente gerir pessoas na hotelaria?

Significa deixar de tratar essa frase como um slogan.

Se as pessoas são realmente o maior ativo, isso tem de aparecer nas decisões: na forma como recrutamos, como fazemos onboarding, como desenvolvemos competências, como comunicamos, como reconhecemos o trabalho e, sobretudo, na forma como os líderes acompanham as suas equipas.

Na hotelaria existe ainda um fator adicional: o colaborador faz parte diretamente da experiência do cliente.

Se uma equipa está desmotivada, mal preparada ou constantemente sobrecarregada, mais cedo ou mais tarde isso chega ao hóspede.

Investir nas pessoas não é apenas uma questão de cultura. É também uma questão de negócio.

Investir nas pessoas não é apenas uma questão de cultura. É também uma questão de negócio.

06 — O que considera que a hotelaria ainda precisa de mudar na forma como atrai, desenvolve e retém talento?

Acho que ainda temos muito a melhorar em três momentos fundamentais do ciclo do colaborador: entrada, desenvolvimento e saída.

O onboarding é muitas vezes feito à pressa porque a necessidade operacional é imediata. O hotel está cheio, falta alguém e é preciso contratar. É uma realidade que compreendo. Nem sempre podemos esperar pelo candidato perfeito.

O problema é que essa urgência muitas vezes continua depois da contratação. A pessoa entra sem um onboarding devidamente estruturado, sem conhecer a história do grupo, a identidade do hotel, a cultura da empresa ou sequer perceber verdadeiramente aquilo que se espera dela.

O offboarding também é muitas vezes tratado apenas como um processo administrativo: a pessoa sai, entregam-se documentos e termina ali a relação.

E entre uma coisa e outra está a formação.

Existe uma preocupação legítima em cumprir as horas de formação obrigatórias, mas cumprir horas não significa necessariamente desenvolver pessoas. Um colaborador que está a começar não precisa necessariamente da mesma formação que um supervisor experiente.

Existe ainda uma dificuldade estrutural: em alguns contextos, temos uma pessoa de Recursos Humanos a acompanhar dois ou três hotéis. É muito difícil garantir um verdadeiro acompanhamento das equipas quando a dimensão operacional é essa.

Precisamos de passar de uma lógica de 'temos de contratar alguém' para 'como conseguimos que esta pessoa entre bem, se desenvolva, queira ficar e, quando sair, saia bem'.

Precisamos de passar de uma lógica de 'temos de contratar alguém' para 'como conseguimos que esta pessoa entre bem, se desenvolva, queira ficar e, quando sair, saia bem'.

Continuação da conversa

07 — Em determinado momento decidiu também entrar no universo das viagens enquanto consultora. De onde surgiu essa decisão?

Não nasceu de uma falta. Nasceu de uma vontade.

Sempre gostei muito de viajar, de pesquisar destinos, hotéis, voos e de construir viagens. Durante anos fiz isso para mim, para família e para amigos, muitas vezes de forma quase obsessiva.

A certa altura percebi que estava constantemente a fazer aquilo que uma consultora de viagens faz: pesquisar, comparar, perceber o que fazia sentido para determinada pessoa e tentar encontrar a melhor combinação entre orçamento, expectativas e experiência.

A The Travel Edit nasceu dessa vontade de transformar algo que já fazia naturalmente numa atividade profissional.

E há uma coisa importante: eu gosto genuinamente dos dois lados.

Gosto de Recursos Humanos porque gosto de pessoas, de desenvolvimento, de construir equipas e de perceber o que faz uma organização funcionar.

E gosto de viagens porque existe uma componente completamente diferente de descoberta, curadoria, produto e contacto com o cliente.

Por isso, não vejo a The Travel Edit como uma fuga dos Recursos Humanos. Vejo-a como uma nova dimensão daquilo que já gosto de fazer.

08 — Não existe uma ligação curiosa entre trabalhar nos bastidores da hotelaria e ajudar clientes a escolher as suas viagens?

Existe, e talvez seja precisamente por isso que consigo conciliar as duas áreas de forma tão natural.

Na hotelaria, conheço o produto por dentro. Sei que por trás de um hotel existem equipas, operações, fornecedores, processos e centenas de pequenos detalhes que o cliente normalmente não vê.

Enquanto consultora de viagens, passei a olhar para esse mesmo produto do outro lado: através dos olhos de quem está a escolher um hotel, a comparar opções e a tentar perceber se aquela experiência corresponde realmente ao que procura.

Essa dupla perspetiva é muito útil.

Consigo olhar para uma viagem não apenas como quem vende um destino, mas também como alguém que conhece a realidade que existe por trás de um hotel.

09 — O que é que trabalhar diretamente com viajantes e clientes lhe está a ensinar que pode levar de volta para a sua carreira na hotelaria?

Está a obrigar-me a voltar a olhar para a experiência através dos olhos de quem está do outro lado.

Em Recursos Humanos falamos muitas vezes de cliente interno — o colaborador — enquanto na consultoria de viagens falamos do cliente externo.

Os focos são diferentes, mas os desafios têm vários pontos em comum: perceber necessidades, gerir expectativas, comunicar bem, resolver problemas e criar uma experiência que corresponda, ou idealmente ultrapasse, aquilo que a pessoa esperava.

Continuo a trabalhar com pessoas nos dois lados da equação.

A diferença é que, num caso, estou a ajudar a construir a experiência de quem trabalha dentro da organização; no outro, estou a ajudar a construir a experiência de quem vai viajar.

Continuo a trabalhar com pessoas nos dois lados da equação.

10 — O que representa para si a construção da The Travel Edit?

Representa a construção de uma marca pessoal, mas sobretudo a construção de um negócio próprio.

E essa parte tem uma realidade que nem sempre se vê nas redes sociais: construir um negócio do zero é difícil.

Não existe necessariamente um retorno financeiro rápido. É preciso investir tempo, aprender, testar, errar, voltar a tentar, encontrar clientes, construir confiança e perceber como transformar uma paixão numa atividade economicamente sustentável.

Estou a aprender áreas que são diferentes daquilo que faço no meu dia a dia de Recursos Humanos: marketing, comunicação, vendas, posicionamento, criação de conteúdo e desenvolvimento de negócio.

É desafiante, mas é precisamente isso que me interessa.

Estou a construir algo que é meu.

11 — Tem dois trabalhos. Como consegue conciliar estas duas dimensões profissionais?

Eu não tenho estes dois trabalhos por necessidade. Tenho-os porque gosto genuinamente dos dois.

E, para mim, eles complementam-se em duas grandes áreas: pessoas e hotelaria.

Nos Recursos Humanos, trabalho sobretudo com o cliente interno — os colaboradores. Na consultoria de viagens, trabalho com o cliente externo.

Os focos são diferentes, mas os desafios são muitas vezes semelhantes: perceber pessoas, compreender necessidades, gerir expectativas, resolver problemas e criar boas experiências.

Acredito que uma área acaba por enriquecer a outra.

E, neste momento, não vejo necessidade de escolher entre as duas.

12 — Se amanhã tivesse de escolher entre continuar exclusivamente em Recursos Humanos ou apostar muito mais na área das viagens, qual escolheria?

Hoje, não escolheria abandonar nenhuma das duas.

Os Recursos Humanos continuam a ser uma parte muito importante da minha identidade profissional. Gosto da hotelaria, gosto de trabalhar com pessoas, gosto de construir equipas e gosto da componente estratégica que existe por trás da gestão de pessoas.

Mas a área das viagens representa outra coisa: possibilidade.

Estou a construir uma marca pessoal e, sobretudo, um negócio que é meu. E isso é simultaneamente muito estimulante e muito difícil.

Não existe um salário garantido no final do mês, não existe um retorno financeiro imediato e ninguém está a construir o negócio por mim.

Tenho de encontrar clientes, criar confiança, aprender a comunicar, perceber marketing, construir uma marca e transformar uma paixão numa atividade economicamente sustentável.

Por isso, se me perguntarem qual das duas me entusiasma mais enquanto desafio neste momento, provavelmente diria viagens.

Não porque queira deixar os Recursos Humanos, mas porque existe algo particularmente desafiante em pegar numa ideia e tentar transformá-la num negócio próprio.

Quero perceber até onde consigo levar algo que estou a construir do zero.

Quero perceber até onde consigo levar algo que estou a construir do zero.

Reflexão

Construção

Se tivesse de resumir o momento profissional em que estou numa palavra, seria esta: construção.

Estou a construir várias coisas ao mesmo tempo.

Continuo a crescer profissionalmente na hotelaria e nos Recursos Humanos. Estou a construir uma marca pessoal. E, através da The Travel Edit, estou a construir uma equipa e um negócio próprio.

Não sei ainda exatamente onde estas duas áreas me vão levar.

Mas sei que quero descobrir.

O próximo capítulo ainda está a ser escrito.

Do lado de dentro da hotelaria. Do lado de quem viaja.

A minha carreira continua a cruzar dois mundos que, no fundo, têm muito em comum: pessoas e experiências.

De um lado, a hotelaria e os Recursos Humanos.

Do outro, o universo das viagens e a The Travel Edit.

É nessa interseção que estou a construir o próximo capítulo.